Conto

Se você não tem paz interior então você vem aqui pra capital

Se você não tem paz interior então você vem aqui pra capital

Já no achado absolutamente irônico do título deste seu livro de contos – Se você não tem paz interior então você vem aqui pra capital –, Cesar Garcia Lima nos brinda com toda a sua inventividade. Cesar vem de uma longa trajetória na escrita, com uma obra que reúne livros de poesia e crônica, além de ter sido o organizador de um livro-entrevista com Adriana Lisboa e autor de ensaios sobre a relação entre literatura e jornalismo. É também roteirista e diretor de documentários. Caleidoscópio de cenas urbanas, as diversas narrativas desta coletânea transitam entre o cotidiano de vidas minúsculas na megalópole (Escrito no dinheiro), a mitologia (As ilhas de Dédalo), o descentramento psíquico que faz lembrar os escritos de Stella do Patrocínio (Dia de visita), o homoerotismo (Prefiro a língua de Verlaine e Rimbaud), a visitação a personagens e autores literários, estes também, por sua vez, transformados em personagens (O show da estrela, Prefiro a língua de Verlaine e Rimbaud, O último palco de Tchékhov). Algumas dessas narrativas, pela alta voltagem da linguagem, ultrapassam a fronteira do conto e tangenciam o poema em prosa. É o caso dos surpreendentes Dia de visita e As ilhas de Dédalo. Verá o leitor que cada conto aqui reunido, sob diferentes ângulos, se propõe a um exercício de alteridade. A apreensão e compreensão da imagem do outro, como um espelho, acaba por nos devolver a própria imagem, revelando-nos em toda a nossa precária humanidade, o que pode ser observado em chave alegórica em O cisne. Nesse jogo de investigação e reconhecimento do eu refletido no outro, o conto Retirada assim termina, como que desejando nos transmitir uma mensagem: “Deus, entendeu ela, estava ocupado com tarefas maiores e ela mesma decidiu tomar providências.” Cabe a nós, portanto, a liberdade e a responsabilidade de tomar as rédeas de nossa vida e aprender a navegar entre as dificuldades e pequenezas do mundo.
 
 
 
Orelha do livro
 
Ruy Proença